Diários de um Superman


Quebrando correntes

                                            

Pago um preço muito amargo por ser Superman. Nem sei mais se, por ser relativamente tão "certinho", tornei-me Ele, ou foi pelo contrário, porque a vida sempre exigiu muito de mim retidão, sensatez e racionalidade; e, quando não sigo exatamente nesses trilhos o preço é caríssimo.

 

Então algum dia resolvi me proteger debaixo da capa vermelha e do S no peito, pois com isso mais me identifiquei. Não sou sombrio para Batman ou depressivo pra Homem-aranha. Sou luz e força e me sinto um estrangeiro nesse planeta. Sendo o Super fico acima do “errar-é-humano” e o jeito Superman de agir sempre será o meu norte.

 

Só que as coisas não podem ser assim para o resto da vida. A vida é curta demais para se viver somente em trilhos. Eu canso também.

 

Paulo Coelho diz que “os navios ficam mais seguros no porto, mas não foi pra isso que eles foram feitos”. Então, se eu tenho superpoderes e posso voar, por que não descolar do chão com toda a velocidade, planar de cabeça pra baixo, dar rasantes? Por que todos exigem que eu voe sempre segundo as normas internacionais de segurança?

 

Sinto críticas, censuras, desaprovação, culpa, dentre outros, simplesmente porque agi exatamente como qualquer humano faz em seus momentos mais marcantes, ou porque tomei determinado rumo na vida que rompe meus paradigmas, que revoluciona o status a que sempre me prendi por convenções que nem sei por que mantive até então. Talvez justamente quebrando paradigmas isso provoque mais no observador do que mesmo em mim uma autocrítica, uma informação de que certas coisas devem ser mudadas, que regras foram feitas para serem quebradas.

 

Eu quero ter o direito de errar, de tentar sempre e de novo, de recusar ou aceitar, de amar, de me apaixonar perdidamente, de romper, de perder o eixo, o norte e o sul; de dar conselhos incertos, de encontrar a pessoa errada, que será a mais certa pra mim, que me tire dos trilhos, que mude meu mundo, que se torne a minha Lois Lane; que faça o meu dia diferente de ontem e de amanhã. Quero poder ousar e assumir compromissos movido por puro instinto, sem a menor racionalidade, só por emoção e sem medo de ser feliz, e que isso não exija uma planilha orçamentária projetada até 2025.

 

Vez por outra eu preciso ser Clark Kent, me banhar da humanidade permissiva da Terra, largar a frieza e o calculismo de Krypton.

 

Estou aprendendo a viver e valeu a pena cada segundo desse exercício.

 

Boa sorte a todos que encaram o desafio de ser Superman nos dias de hoje. Se eu posso, você também.



Escrito por Kal-El às 17h31
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